O movimento ecológico no brasil (1974-1986): do ambientalismo à ecopolítica






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O ecologismo em transição (1982-1985)

O ano de 1982 é crucial na transição democrática brasileira na medida em que o processo, até o momento restrito à liberalização, adquire uma dimensão de democratização política com a realização de eleições competitivas para os governos estaduais. (Sobre a importância de 1982 na transição democrática brasileira veja-se Lamounier, 1986; Viola & Mainwaring, 1985.) E 1982 é também o ano em que podemos datar o início da fase de transição do movimento ecológico. De qualquer modo, à diferença dos outros movimentos sociais (novo sindicalismo, associações de moradores, comunidades eclesiais de base, feminismo) que envolveram-se intensamente na luta político-eleitoral de 1982, o movimento ecológico interveio apenas tangencialmente. (Sobre o envolvimento dos movimentos sociais nas eleições de 1982 veja-se Jacobi, 1985.)

Um setor minoritário do ecologismo decide participar diretamente na arena política nas eleições de 1982 apoiando candidatos que levantam bandeiras ecológicas para deputado estadual. Este processo acontece nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, os candidatos estão no PT e PMDB. A maioria dos ativistas ecologistas rejeitam qualquer envolvimento direto com candidatos em 1982, mas o fato de um setor minoritário decidir envolver-se é suficiente para introduzir uma nova dinâmica no interior do movimento. Três dos candidatos que levantaram bandeiras ecológicas como um componente fundamental de sua plataforma elegeram-se nas eleições de 1982: Litz Vieira é eleito deputado estadual pelo PT do Rio de Janeiro, Walter Lazzarini é eleito deputado estadual pelo PMDB de São Paulo e Caio Lustoza é eleito vereador pelo PMDB de Porto Alegre. Gastão Gonçalves é eleito suplente de deputado estadual pelo PMDB de São Paulo (7). O ex-prefeito de Lages, Dirceu Carneiro, elege-se deputado federal pelo PMDB de Santa Catarina, mas as questões ecológicas ocupam um lugar secundário na sua plataforma. Os três parlamentares eleitos tiveram uma atuação conseqüente com sua plataforma eleitoral prestigiando as potencialidades da função parlamentar diante do movimento ecológico.

O segundo momento de envolvimento político das associações ecológicas acontecerá em começo de 1984 por ocasião da campanha pelas diretas. A diferença das eleições de 1982, a grande maioria dos ativistas ecologistas decide participar nas mobilizações em favor de eleições diretas para presidente da República. Durante a campanha são reativadas discussões travadas em 1982 e um novo consenso vai construindo-se no movimento: a defesa do meio ambiente está diretamente vinculada aos problemas da organização do poder e da propriedade na sociedade global.

Como resultado dos debates realizados durante a campanha pelas diretas, os movimentos ecológicos de São Paulo e Rio Grande do Sul realizam durante o ano de 1984 vários encontros regionais nos quais são discutidas formas de coordenar os esforços das diversas entidades, particularmente quando lidam com as agências estatais. Esta prática de realização de encontros estaduais continua naqueles Estados durante 1985, ano em que se realizam também em Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro. As agendas destes encontros têm vários pontos em comum que mostram a politização do ecologismo: identificação dos principais pontos de degradação ambiental no Estado, definição de prioridades de luta a nível estadual, discussão sobre as relações entre movimento ecológico e partidos políticos, alianças com outros movimentos sociais, fortalecimento organizacional das associações, discussão sobre a viabilidade e desejabilidade de formação de um Partido Verde no Brasil, conteúdos e formas de participação ecologista na Constituinte.

Durante a campanha eleitoral das prefeituras em 1985 os movimentos ecológicos conseguem estruturar espaços de debate autônomo com os candidatos dos diversos partidos em três capitais: Rio de Janeiro, Porto Alegre e Florianópolis. Em Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte os movimentos ecológicos não conseguem criar essa instância de debate público com os candidatos, mas intervêm abertamente em apoio aos candidatos que mostram sensibilidade para a questão ambiental.

Desde meados de 1985 existe consenso no movimento ecológico dos seis Estados em que este tem uma estruturação básica (RS, SC, PR, SP, RJ, MG) sobre a necessidade de intervir incisivamente no próximo Congresso Constituinte. Isto leva à fundação, em fins de novembro no Rio de Janeiro, da Coordenadoria Interestadual Ecologista para a Constituinte (CIEC) com a participação de representantes dos seis Estados referidos. As linhas gerais do novo consenso estão definidas: é fundamental ecologizar o debate constituinte e o texto da futura Constituição e isto deve ser feito através da eleição de constituintes surgidos do seio de movimento que constituiriam um bloco parlamentar ecologista; o apoio a candidatos externos ainda que simpáticos e sensíveis ao movimento é uma alternativa limitada; é preciso um debate interestadual com o objetivo de precisar quais serão as posições ecologistas que serão enfatizadas durante a campanha eleitoral.

Em três anos que vão de 1982 a 1985 tinham se processado mudanças cruciais na orientação do movimento ecológico: a grande maioria de 82 não queria nenhum tipo de envolvimento nas eleições, a grande maioria de 85 é favorável ao envolvimento, direto do movimento nas eleições apoiando candidatos emergidos do interior.

Durante esta fase de transição foi processando-se uma aproximação entre as comunidades alternativas rurais e o ecologismo urbano. De um lado diminuía o fundamentalismo que bloqueava o diálogo com a vida urbana, do outra emergia o problema da criação de uma economia alternativa nas cidades, e para isto devia recorrer-se à experiência dos que tinham resolvido esse problema no campo. Esta aproximação resultou muito fecunda no Rio Grande do Sul, onde se consolida a cooperativa "Coolmeia". A "Coolmeia" é uma comunidade urbano-rural constituída por um entreposto-restaurante em Porto Alegre e uma fazenda a 50 quilômetros. Alguns membros vivem no campo e outros na cidade, revezando-se. Estão organizados segundo o princípio do cooperativismo autogestionário e são muito ativos nas lutas do movimento ecológico gaúcho.

A confluência entre o ecologismo urbano e rural foi muito importante durante 1984 quando foram debatidas e aprovadas as leis estaduais de agrotóxicos nos Estados do Sul-Sudeste. O movimento urbano pôde ampliar notavelmente o escopo do debate, incluindo exemplos precisos de agricultura ecológica, em virtude do subsídio prático oferecido por 10 anos de experiência das comunidades alternativas rurais (Pinheiro et aiiü, 1985). Foram estas experiências que influenciaram decisivamente na formação de uma forte corrente ecologista no interior da Sociedade Brasileira de Engenheiros Agrônomos. As comunidades rurais vinham realizando, desde 1978, Encontros Anuais de Comunidades Alternativas que ano a ano foram transformando-se num fórum fundamental de intercâmbio de experiências. Em 1985, pela primeira vez, o Encontro, realizado em Pindamonhangaba (SP), foi aberto aos ecologistas urbanos, resultando no . primeiro diálogo sistemático a nível nacional de ecologistas, rurais e urbanos. Nesse Encontro, com a participação de mais de 2.000 pessoas durante uma semana, os ecologistas urbanos conseguiram persuadir a parte dos rurais sobre a importância da participação no próximo Congresso Constituinte.

O ano de 1985 foi também um ano decisivo desde o ponto de vista da imprensa ecologista: apareceram dois novos jornais de circulação nacional Outra e Vida e Cultura Alternativa. O primeiro é uma publicação trimestral da Cooperativa "Coovida" do Rio de Janeiro, circulando no interior do movimento alternativo. O segundo é uma publicação montada em moldes comerciais, mas com um conselho editorial constituído por personalidades do movimento alternativo, que tem uma circulação extraordinária para uma publicação ecologista (60.000 exemplares distribuídos em todo o país).

Várias transformações ocorreram no tecido social do movimento ecológico entre 1982 e 1985 que explicam a radical mudança de posição política: proliferaram entidades nas cidades médias dos seis Estados do Sul-Sudeste; o número de ativistas por entidades e o número de simpatizantes cresceu consideravelmente; os ecologistas penetraram no interior de muitas associações de moradores de classe média; em algumas áreas e cidades industriais começou um diálogo e interinfluência entre o movimento ecológico e o sindicalismo operário; o movimento ecológico começou a penetrar estruturalmente no estudantado universitário; influência do movimento ecológico, no Sul, nos movimentos dos "sem-terra" e contra as grandes barragens (Scherer-Warren & Reis, 1985; Minc, 1985) (8). Mas, a transformação fundamental foi na mudança do padrão de atuação do ecologismo: o movimento de pura denúncia foi sendo substituído pela formulação de estratégias que levaram em consideração fundamentalmente a eficácia pontual da luta. Deste modo, em 1985, é possível visualizar vitórias concretas das lutas do movimento ecológico em várias cidades, os processos decisórios a nível de políticas públicas (particularmente municipais mas também estaduais) são afetados pelas lutas ecologistas. Toda esta mudança no tecido social do movimento ecológico acarretou uma mudança qualitativa na opinião pública: a maioria da população medianamente informada passou a considerar com seriedade a crise ecológica e a atuação ecologista. Isto reflete-se também nos meios de comunicação de massas: em 1985 aumentou consideravelmente o espaço dedicado a questões de meio ambiente na imprensa escrita e na televisão (Lafo, 1986). A classe média "culta" incorporou alguns valores ecologistas na sua visão de mundo, ainda que de modo fragmentário: geralmente se considera desejáveis e compatíveis um crescimento do consumo individual (esta classe média tem um padrão de consumo similar a seu equivalente do 1º Mundo) e a preservação do meio ambiente. Quando é necessário realizar uma opção precisa entre consumo e meio ambiente, á maioria opta pelo primeiro.

 

A opção ecopolítica em 1986

Desde janeiro de 1986 existe intensa movimentação no ecologismo na perspectiva de intervenção no processo Constituinte. Em fevereiro realizou-se em Curitiba o 2º Encontro do CIEC com representação dos seis Estados do Sul-Sudeste. Neste Encontro estabeleceu-se os parâmetros gerais da plataforma ecologista nacional para a Constituinte; ecodesenvolvimento, pacifismo, descentralização das fontes energéticas (contra as usinas nucleares e as grandes hidroelétricas), qualidade de vida, função social e ecológica da propriedade, justiça social, democracia participativa, reforma agrária ecológica, descentralização e democratização do sistema de comunicação de massa, educação ambiental generalizada. Também se estabeleceram critérios para a formação das listas verdes estaduais. Estas são listas transpartidárias compostas por candidatos membros do movimento ecológico que se comprometem, se eleitos, a defender a plataforma ecologista na Constituinte ou nas Assembléias Legislativas, e a dar uma parte de seus rendimentos para o desenvolvimento das associações de base. Os 3º e 4º Encontros do CIEC (Itapecerica da Serra, SP, em abril e em Brasília em junho) fracassam na tarefa a que se tinha proposto o 2º Encontro de realizar um debate teórico em profundidade sobre os fundamentos da Ecologia Política com o objetivo de elaborar uma plataforma extensa e precisa para a Constituinte.

Em janeiro é fundado no Rio de Janeiro o Partido Verde animado por algumas figuras de longa presença no movimento ecológico brasileiro: Fernando Gabeira, Litz Vieira, Carlos Minc. Os verdes cariocas lançam a estratégia de estruturar uma coligação com o PT e o PSB, de modo a conseguir legenda para seus candidatos já que o reconhecimento legal do partido seria impossível em prazo viável para concorrer nas eleições de 1986. As negociações com o PSB estagnam-se, mas as conversações com o PT avançam rapidamente até ser aprovada na convenção do PT em final de abril a coligação, incluindo a candidatura de Gabeira a governador. Deste modo, o Estado do Rio de Janeiro constituí-se conjunturalmente no eixo do movimento ecológico brasileiro, já que é a única candidatura a governador ecologista, com forte potencialidade de atrair uma significativa base eleitoral para a eleição de candidatos verdes a deputados federal e estadual, e com forte repercussão no nível nacional por ser o Rio de Janeiro o centro da comunicação de massa.

Em março é fundado o Partido Verde em Santa Catarina, com uma orientação similar à do Rio de Janeiro, mas animada por figuras de presença recente no movimento ecológico. Em Santa Catarina configura-se uma divisão em dois blocos, com relações difíceis entre si: os fundadores do Partido Verde de um lado e os ecologistas do PT do outro, estes últimos apostando na ecologização do PT. Entre ambos, fazendo as vezes de mediadores, situa-se um setor que considera inviável a ecologização do PT, mas ao mesmo tempo considera prematura a fundação do PV, com a presente densidade e extensão limitada do movimento ecológico. A diferença do Rio de Janeiro, os candidatos do Partido Verde em Santa Catarina saem nas legendas do PCB e PDT. Em julho filia-se ao Partido Verde em Santa Catarina o prefeito de Ibirama, Luiz Muller, que tinha se desfiliado do PMDB em abril. Muller é o primeiro, e único até agora, prefeito brasileiro a entrar no Partido Verde. Na convenção do PDT, em julho, é escolhido candidato a senador o ecologista de Joinville, Gert Fischer, sendo a segunda candidatura ecologista a um cargo majoritário a surgir no Brasil.

Nas convenções partidárias realizadas nos meses de junho e julho os ecologistas disputam vaga em vários partidos (Partido dos Trabalhadores, Partido do Movimento Democrático Brasileiro, Partido Democrático Trabalhista, Partido Comunista Brasileiro, Partido Socialista Brasileiro e Partido Humanista) nos seus Estados do Sul-Sudeste, sendo que a maioria deles consegue ser lançado candidato.

Em maio, em Belo Horizonte, realiza-se o 1.° Encontro Nacional de Entidades Ecologistas Autônomas, com a participação de mais de uma centena de associações, a grande maioria delas dos Estados do Sul-Sudeste, mas incluindo pela primeira vez no debate nacional de ecologistas urbanos algumas associações do Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Os debates duram quatro dias, organizados em várias áreas temáticas: ecodesenvolvimento, educação ambiental, reforma agrária ecológica, comunicações alternativas e relações internacionais e meio ambiente Reafirma-se uma vez mais o consenso em relação à importância de uma participação incisiva na Constituinte, mas os debates tornam-se extremadamente difíceis e ásperos quando se discute a problemática do Partido Verde. A maioria das entidades representadas no Encontro teme uma fundação apressada do Partido Verde que possa vir dispersar as energias dedicadas cotidianamente ao trabalho de base e possa atrair para o partido vastos contingentes de oportunistas que poluiriam no seu nascedouro a proposta. (Um argumento desenvolvido contra o Partido Verde encontra-se em Schinke, 1985.)

Em julho de 1986 a situação do movimento ecológico brasileiro pode ser resumida do seguinte modo: existência de uma instância sistemática de coordenação das atividades nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro; existência de instâncias eventuais de coordenação de atividades nos Estados do Paraná e Minas Gerais; existência de um fórum anual de debate entre as entidades urbanas, a nível nacional; existência de um fórum anual de debate entre as comunidades alternativas rurais, a nível nacional; existência de uma instância ad hoc de troca de experiências para os candidatos ecologistas para a Constituinte, a nível nacional; forte consenso entre os ecologistas urbanos e parcial entre os rurais a respeito da necessidade de intervir maciçamente no processo Constituinte; caráter transpartidário do movimento ecologista, havendo militantes participando predominantemente dos seguintes partidos: PV, PT, PMDB e PDT; processo de organização embrionário do PV no Rio de Janeiro e em Santa Catarina com probabilidade de estender-se aos outros Estados do Sul-Sudeste; forte divisão no movimento ecológico; respeito da viabilidade e desejabilidade do PV no curto prazo; ameaça de fracionamento do movimento ecológico em função da problemática do PV.

Em 1986, o movimento ecológico brasileiro parece ter atingido um ponto de maturação sem retorno: seu crescimento quantitativo, qualitativo e cumulativo, longe, portanto, do padrão cíclico que apresentam outros movimentos sociais. (Balanços recentes em perspectivas diferentes sobre a dinâmica dos movimentos sociais no Brasil encontram-se em Evers, 1984; Scherer-Warren, 1984; Mainwaring, 1986; Doimo et alii, 1985; Jacobi, 1985; Boschi, 1986; Silva & Ribeiro, 1984; Cardoso, 1983; Boschi & Valladares, 1983; Durhan, 1984). A origem sócio-cultural dos ativistas ecologistas continua sendo universitária, ainda que de modo menos exclusivo do que no passado e a participação proporcional das mulheres cresceu muito. As estruturas do movimento são muito fluidas, poderíamos dizer caóticas, desde uma ótica política tradicional, ainda que relativamente pertinentes a teu principal objetivo, o de expandir a consciência ecológica, ecologizar a sociedade.

Convivem em 1986 no Brasil as quatro posições definidas em termos mundiais na primeira parte: ecologistas fundamentalistas, ecologistas realistas, ecocapitalistas e ecossocialistas. Seguindo a tendência mundial a posição ecologista é definidamente predominante no interior do movimento ecológico brasileiro em 1986, à diferença de 1982 quando os fundamentalistas estavam equilibrados com os realistas ou em 1978 quando os fundamentalistas eram majoritários. Os ecologistas fundamentalistas e os ecossocialistas (estes somente começaram a emergir em 1982) ocupam uma posição secundária no seio do movimento ecológico, ficando para os ecocapitalistas uma posição marginal. Apesar desta posição marginal no movimento social os ecocapitalistas ocupam lugares estratégicos nas agências estatais de meio ambiente. De outro lado, os setores de classe média "culta" que se tornaram sensíveis à proposta ecologista nos últimos anos identificam-se vagamente com o ecocapitalismo. Este, marginal no movimento social autônomo, é predominante na opinião pública e no aparelho estatal.

A ecologização da classe média "culta" refletiu-se recentemente na significativa tematização da problemática do meio ambiente no anteprojeto da Constituição, que foi elaborado pela Comissão presidida pelo Dr. Afonso Arinos. Aparentemente esta Comissão coloca-se na questão do meio ambiente numa posição avançada, se comparada com a mentalidade média da sociedade brasileira. Disto pode concluir-se, provisoriamente, que a existência da Comissão de notáveis foi favorável a ecologização da sociedade, apesar da oposição quase unânime que esta encontrou no seio do movimento ecológico quando se formou em setembro de 1985 (o movimento ecológico era favorável à Constituinte exclusiva, sem Comissão de notáveis). A posição ecocapitalista teve forte peso na Comissão Constitucional, apesar de ela ser fraca no seio do movimento ecológico e no seio da burguesia brasileira.

A burguesia brasileira, em termos gerais, tem rejeitado até hoje o discurso ecologista. Seu padrão de acumulação e comportamento tem sido tão selvagem em relação ao meio ambiente como o foi em relação à força de trabalho. Na tecnoburocracia do setor produtivo estatal observa-se uma mudança de comportamento nos anos recentes em que os impactos ambientais começam, desniveladamente, a ser levados em consideração pelo menos a nível de preocupação (ainda que isto não se traduza necessariamente na prática). Em parte importante isto explica-se pelo fato de que a tecnoburocracia estatal faz parte da classe média "culta" As multinacionais, muita das quais investiram no Brasil do "milagre", atraídas pelas economias externas em termos de meio ambiente, são as que melhor responderam (até hoje) ao processo de controle de efeitos poluentes iniciado pelas agências estaduais de meio ambiente do Sul-Sudeste no começo da década de 80. Na escala de intensidade da depredação e conflito com a tecnoburocracia das agências estatais de meio ambiente, a burguesia local ocupa a primeira posição, o setor produtivo estatal a segunda, e as multinacionais a terceira. Paradoxalmente, se pensamos no chamado de Médici às indústrias poluidoras, as multinacionais são o setor mais sensível à ação da tecnoburocracia ecocapitalista das agências estatais de meio ambiente (9).

Os ecossocialistas, apesar de secundários, têm crescido proporcionalmente mais que qualquer outro setor no seio do movimento ecológico, desde sua emergência, em 1982, até o presente. Uma parte importante do contingente ecossocialista está formada por militantes da nova esquerda que se envolveram na construção do PT em 1980-82, e foram frustrando-se pelo perfil mais tradicional que o partido ganhou no período 1983-85. Os ecossocialistas concentram seus esforços (proporcionalmente mais que os ecologistas realistas) para que o movimento penetre nos setores operários e populares. Os ecossocialistas brasileiros apostam no desenvolvimento duma classe operária com consciência socialista e ecológica, que seria o agente principal da mudança histórica. A receptividade dos operários aos ecossocialistas tem sido até hoje limitada e desigual: a receptividade é alta no que se refere à melhoria do meio ambiente de trabalho, mas baixa no referente a questões mais gerais. A mentalidade média do operariado brasileiro é favorável a altas taxas de crescimento econômico (sem importar seu caráter degradador do meio ambiente) e redistribuição da renda. Mas, em algumas cidades ou áreas industriais (Gravataí, Criciúma, Cubatão, Araucária etc.), setores do sindicalismo manifestam sensibilidade global para os problemas ecológicos. Uma parte importante dos ecossocialistas são militantes ou simpatizantes do PT e apostam na sua transformação num partido ecossocialista,. argumentando que todo o componente inovador de sua corrente socialista democrática deverá reconhecer, a médio prazo, o caráter crucial dos problemas ecológicos no mundo contemporâneo.

A convivência entre os ecologistas fundamentalistas, os ecocapitalistas e os ecossocialistas no interior do movimento ecológico é bastante conflitiva. Os ecologistas realistas desempenham um papel fundamental de mediadores e reguladores de conflitos entre os outros três setores. Os ecologistas fundamentalistas tendem a considerar os ecocapitalistas e ecossocialistas como um tanto estranhos ao movimento ecológico e potencialmente deturpadores da pureza do movimento. Os ecocapitalistas e ecossocialistas, por sua vez, tendem a desconsiderar os fundamentalistas pelo seu caráter romântico e politicamente ingênuo, embora reconheçam a dedicação ao movimento por parte daqueles. Os ecossocialistas desconfiam das reais e potenciais vinculações com a burguesia por parte dos ecocapitalistas e tendem a criticar, em bloco, a tecnoburocracia ecocapitalista das agências estatais do meio ambiente. Os ecocapitalistas, por sua vez, desconfiam dos objetivos dos ecossocialistas e temem que estes façam "entrismo" no movimento ecológico para transformá-lo num apêndice dos partidos de esquerda. Os ecocapitalistas tendem a ser defensores e justificadores da tecnoburocracia das agências estatais de meio ambiente a qual percebem como isolada e enfrentada ao resto da tecnoburocracia estatal (agente do desenvolvimento predatório).

Os ecologistas realistas, predominantes no interior do movimento social, têm pouco peso na opinião pública sensibilizada, já que sua proposta não é facilmente decodificada (em grande medida por dificuldades de explicação) tendendo a ser confundida com a ecologista fundamentalista e, conseqüentemente, descartada como romântica e inviável. Deste modo, os ecocapitalistas constituem-se na ponte privilegiada entre o movimento ecológico e os importantes setores médios sensibilizados; os ecossocialistas fazem a ponte com os mínimos setores operários sensibilizados; e os ecologistas realistas e ecossocialistas fazem a ponte com os mínimos setores populares urbanos e rurais sensibilizados. O campo de disputa mais importante que se estabelece no presente é entre ecocapitalistas e ecologistas realistas em relação à classe média "culta", os segundos desafiando a posição de ponte privilegiada detida pelos primeiros.

O Partido Verde do Rio de Janeiro tem o perfil de uma coligação entre ecologistas realistas e ecossocialistas, com predomínio dos primeiros e com inclusão muito secundária de ecologistas fundamentalistas e ecocapitalistas. O PV de Santa Catarina tende a ter o perfil duma coligação entre ecologistas realistas e ecocapitalistas, com predomínio dos primeiros e participação marginal de ecologistas fundamentalistas e ecossocialistas (estes últimos agrupados até hoje no PT).

A complexidade de relações e alinhamentos no interior do movimento ecológico é extraordinária, particularmente devido à grande diversidade regional do Brasil, mesmo no Sul-Sudeste que é o espaço de atuação do movimento ecológico.

A modo de conclusão geral podemos dizer que seis fatores explicam globalmente a emergência e o desenvolvimento do movimento ecológico no Brasil:

1°) o caráter fortemente internacionalizado do movimento ecológico mundial devido ao caráter planetário da degradação sócio-ambiental processada nas últimas quatro décadas;

2º) o fato de o Brasil ser um país ascendente do 3.° Mundo, com forte internacionalização do seu sistema produtivo e de comunicações;

3º) a intensidade de degradação sócio-ambiental produzida nas últimas quatro décadas, contrapartida do extraordinário crescimento econômico e conseqüente ascenso no sistema mundial;

4º) o caráter excessivamente predatório (mais que a média mundial) da visão de mundo e das políticas implementadas pelas elites do regime autoritário (1964-1985);

5º) a profunda crise em que mergulhou a esquerda brasileira depois da fracassada experiência guerrilheira de 1968-1973, crise esta que, por sua vez, vincula-se com a crise geral do marxismo no interior da esquerda ocidental;

6º) o processo de transição democrática, iniciado com a liberalização (a partir de 1974) e continuado com a democratização (a partir de 1982), criou um contexto sócio-político cada vez mais favorável para a organização de movimentos sociais e para o debate de novas idéias.

Três questões parecem fundamentais no futuro imediato do movimento ecológico:

1ª) a consolidação de estruturas organizacionais de nível estadual e nacional;

2ª) uma penetração mais ampla nas classes populares;

3ª) colocar-se como um interlocutor legítimo no grande debate sobre o presente e o futuro da sociedade brasileira. Aqui não podemos entrar em profundidade nesta discussão, deixando-a para posterior desenvolvimento. No entanto arriscamos algumas breves especulações.

A primeira questão nos permitiria ser otimista se olhássemos rapidamente para os avanços dos dois últimos anos, mas tenderíamos a ser pessimistas se levarmos em consideração uma combinação explosivamente contrária ao desenvolvimento organizacional sediada na baixa capacidade associativa da sociedade brasileira e nos componentes anarquistas presentes no ecologismo brasileiro (igual ao resto do mundo). Sobre a segunda questão não é difícil ser pessimista se olharmos para o discurso economicista convencional de quase todas as lideranças populares expressivas do país. Porém poderíamos ser um tanto otimistas se olhássemos mais detidamente para o potencial de articulação entre o pós-materialismo do movimento ecológico e os componentes mais espiritualizados da Igreja progressista e das comunidades eclesiais de base em particular. (Veja-se, no geral, Krischke & Mainwaring, 1986; e, em particular, enfatizando este potencial de confluência Sousa, 1986.) Sobre a terceira questão é possível ser bastante otimista se levarmos em consideração uma dinâmica mundial em que as posições ecologistas estão se transformando em interlocutores legítimos na maioria dos países do 1º e 2° Mundo e que o movimento ecológico tem boa penetração nos setores médios, formadores da opinião pública.

 
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