José Maurício Kimus Dias




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Sonhos 2



"Canis panis somniat, pescatur piscis." ("O cão sonha com pão, o pescador, com peixe".)- Ditado antigo.

O conteúdo dos sonhos, seu significado e sua importância para o sonhador, são temas que têm preocupado a humanidade desde seus inícios. Sabemos que os sonhos fascinaram o homem arcaico assim como ainda fascina os homens nas culturas tribais de uma forma peculiar: seus conteúdos revelariam de forma literal e direta eventos da vida diurna. Xamãs e advinhos sempre buscaram nos sonhos fontes para suas profecias e premonições.

Um fator comum permeia o relacionamento do homem arcaico com o universo onírico, pertença ele a qualquer que seja o grupo social: os conteúdos oníricos não são vivenciados como símbolos, em sua riqueza polissêmica, mas como sinais de significado fixo. Esse significado fixo é dado por pressuposto cultural qualquer.

Esta forma literal de vivenciar a subjetividade dos sonhos não é privativa da sociedade tribal, nossos contemporâneos rurais, por exemplo, vivem sob a influência inconsciente de um sistema de crenças mágico, que atribui valores determinados a certos símbolos oníricos, reduzindo-os a sinais unívocos. A fascinação é semelhante, quer entre o xamã siberiano, que tem sonhos de profundo significado religioso, quer seja o paciente no templo do deus- médico Asclépio, na Grécia antiga que sonha a cura de sua doença no santuário do deus. Também o homem simples é tomado pelo poder das imagens em seu sistema de crenças, que rezam que certos animais ou objetos significam eventos específicos da vida desperta. Esta rede de significados visa estabelecer pontes entre o mundo onírico e o mundo diurno.

O grande valor da psicologia do inconsciente na recuperação do mundo onírico na sociedade contemporânea, é que tanto Freud quanto Jung preocuparam-se com o resgate de símbolos, não de sinais unívocos. A simplicidade ingênua da antiga abordagem dos conteúdos oníricos como sinais de valor literal foi transcendida.

Freud procurou realizar este salto fundamental declarando o sonho uma via regia para o inconsciente e usando seu método genial das associações livres. O método das associações libera a imagem de seu significado fixo, uma mesma imagem pode ter significados diferentes, para sonhadores diferentes. Mas Jung detecta uma falha no método das associações livres, uma vez que elas podem levar o sonhador para longe demais da imagem que constitui o sonho, e o sonhador acabara se deparando com um complexo inconsciente, é verdade, mas um conteúdo que pode ter pouco a ver com a imagem do sonho em si. Jung lembra que para se chegar ao mesmo complexo pode-se partir, por associações livres, de qualquer conteúdo consciente. Em vez disso, Jung propõe o método das associações circunscritas; as imagens são rigorosamente valorizadas, em sua textura, cor e dimensões. As emoções particulares do sonhador em relação a cada imagem são também enfatizadas.

Mas neste fascinante mosaico antitético de duas realidades paralelas, a realidade vigil e a realidade misteriosa dos sonhos, as imagens oníricas cumprem sempre uma função básica, quer seja entre o homem arcaico, quer seja entre aqueles da sociedade complexa, onde os sonhos são interpretados de uma forma sofisticada pela psicanálise ou pela psicologia analítica. A função básica do sonho é relativizar a estreiteza da realidade consciente. A riqueza da imagética onírica nos trás de forma definitiva uma realidade nova, que nos faz recuar de nossos automatismos conscientes e questionar. Don Juan, mestre (onírico ou vigil?) de Carlos Castañeda está certo: a realidade do tonal (vigília) encobre uma realidade muito mais ampla e significativa, o mundo do nagual (universo onírico).

Walter Boechat é médico, analista junguiano, diplomado pelo Instituto C.G.Jung de Zurique. Membro- Fundador da Associação Junguiana do Brasil.

Publicado no Jornal SONHOS n º 10

Sonhos 3



Silvia E. F. Graubart

Quem sequer hesita diante da pergunta, afirmando categoricamente que não sonha, coloca-nos frente a um desafio extra durante a hora analítica: despertar suas habilidades de pensar através de imagens. Geralmente, são pessoas psicologicamente tão pouco desenvolvidas, cuja capacidade de simbolização é tão sutil, quase inexistente, que requerem de nós, analistas, o exercício de uma atitude paciente em relação a elas, invertendo a situação analítica. Temos que ser mais pacientes do que os próprios pacientes.

Trabalhando suas falas através de metáforas, podemos ajudá-las a desenvolver, progressivamente, um olhar mais criativo para relatar queixas até então trazidas e compreendidas de forma literal. Isto não é fácil, mas, com o tempo, estes pacientes captam a dinâmica do processo e, como que iniciando um verdadeiro ritual de passagem, começam a entrar, pouco a pouco, em contato com o mundo onírico.

Tenho um caso especial, que bem explicita o quanto é possível caminhar nesta direção, quando se está efetivamente preocupado em dar o melhor de nós.

A paciente é uma moça de trinta e poucos anos, extremamente inteligente e que até há pouco tempo desenvolvia uma atividade profissional muito reconhecida. Entretanto era uma atividade solitária e, por necessidade de ampliar seus relacionamentos, acabou deixando-se fascinar por um trabalho fora de sua área específica de formação. Além disso, seria funcionária de uma grande empresa.

Quando me procurou seu potencial estava sendo absolutamente desperdiçado, em função de problemas afetivos e como decorrência do seu encaminhamento profissional. O encantamento pela grande empresa começava a desaparecer, mesmo diante da possibilidade de aproveitar muito dos seus conhecimentos neste novo trabalho. Separada do marido e com uma filha pequena, atravessava uma fase de nigredo total. (Nigredo é o nome que os alquimistas davam ao primeiro estágio do processo alquímico, no qual os materiais estão indiferenciados, e que num paralelo com o processo psicológico representa os momentos de confusão, angústia e dificuldade de discriminação que leva as pessoas a procurar ajuda terapêutica).

Entre dois amores - A paciente não trazia sonhos e as sessões giravam em torno da dificuldade de optar entre os dois rapazes com quem estava se relacionando afetivamente: um mais jovem, porte atlético – um verdadeiro Apolo, imaginei. O outro, mais velho – um sedutor de carteirinha – cuja descrição me passou, de imediato, a sensação de estarmos diante de um perfeito Don Juan.

Como sua capacidade intelectual era altamente desenvolvida, não foi difícil "brincarmos" durante um bom tempo com estes dois personagens, a ponto de tornar possível que ela reconhecesse, em ambos, personalidades parciais dela mesma: personagens ocultos e desconhecidos que faziam parte de sua personalidade e que, portanto, serviam de cabide adequadíssimo para receber suas projeções.

Entretanto, continuava refratária aos sonhos e dizia, com frequência, que o dia-a-dia era estafante demais, caia na cama esgotada e, por isso, não sonhava.

Eu insistia todo início de sessão: lembra-se do que sonhou? Ela nada.

Resistir, até quando? A partir da primeira descoberta (aqueles dois rapazes nada mais eram do que projeções de potenciais desconhecidos de si mesma) definiu-se pela ruptura amorosa, exatamente no mesmo período em que sua estabilidade no emprego começou a desmoronar. Passou semanas na mais absoluta confusão interior, cujo sofrimento refletia-se até no frequente atraso com que chegava às sessões. Resistia a mim, tanto quanto às mensagens que seu inconsciente estava querendo mandar.

Algum tempo depois, trouxe o primeiro sonho:

"Estava diante de um importante Shopping Center e bem em frente a ele havia um trilho de trem, cujos dormentes eram muito próximos um do outro. Eu estava do lado de cá dos trilhos, impossibilitada de entrar para fazer o que precisava".

Não foi nada fácil fazer com que ela entrasse em contato com o simbolismo contido nestas imagens. Estava preocupada demais com as contas que tinha para pagar – quase todas atrasadas – e na organização da estrutura doméstica, que equacionava de maneira estritamente racional. Não sobrava, portanto, tempo para criar, imaginar. Progressivamente, mas muito devagar, foi possível conversar sobre o que estar apartada de um shopping por uma linha ferroviária poderia estar dizendo. A imagem era clara, falava por si, e o sonho estava tão presente que voltava em quase todas as sessões. Ampliamos o quanto foi possível o que uma linha divisória tão rigidamente demarcada poderia querer estar dizendo. Falamos também sobre a principal atividade que se desenvolve dentro de um shopping, um mercado, um local de compra e venda – de trocas – e os sentimentos que estas imagens despertavam nela. Aos poucos, nosso trabalho começou a desencadear uma série de associações, até que num determinado momento a paciente deu-se conta que suas dificuldades concentravam-se em torno de trocar afetivamente de maneira satisfatória. Depois desta constatação não foi difícil rever sua dinâmica de relacionamento com as pessoas em geral e, em especial com o sexo oposto, a fim de que seus padrões pudessem ser revistos e alterados. Nosso trabalho direcionou-se naturalmente para o fato dela estar "do lado de cá" dos trilhos também no nível profissional. Refizemos seu percurso , retornamos ao ponto de partida e reconstruímos o desenvolvimento de sua carreira. O insight veio com o sentido de isolamento que o "estar do lado de cá" evocou: a dificuldade não estava apenas em estabelecer relacionamentos, trocas afetivas, mas refletia-se no seu desempenho profissional, devido ao afastamento de sua vocação original, (o sonho mostrava um trilho separando-a do mercado) que clamava para ser resgatada. Atualmente, ela começa a retomar o rumo abandonado, resgatando sua atividade primeira mais fortalecida e confiante. Nossa caminhada, entretanto, continua na direção de ampliar ainda mais sua capacidade de simbolização, para que os apelos de alma possam ser metaforicamente escutados. Não avançamos muito, mas o que conseguimos permite que as novas imagens encontrem olhos e ouvidos mais receptivos para uma compreensão metafórica em vez de literalizada. Temos ainda uma longa caminhada. Mas os trilhos, agora, nos conduzem ao que Hillman chama de cultivo de alma (soul-making).

A autora é analista junguiana Publicado no Jornal SONHOS n º 11

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